sexta-feira, 1 de junho de 2007

MEMÓRIAS DO CAJUEIRINHO - Messias de Freitas

LIVRO RESGATANDO MEMÓRIAS

III - MEMÓRIAS DO CAJUEIRINHO

Desde muito cedo eu sempre quis saber das coisas, às vezes a mamãe me repreendia porque eu era perguntador; enquanto papai era paciente, dizia para ela: quem pergunta quer saber, se não souber diga que não sabe, mas sabendo não deixe sem resposta. As repreensões dela também me foram úteis, porque na medida que eu ia crescendo, fui perguntando menos, fiquei só na curiosidade de observar aquelas conversações que me interessavam. Graças a isso, adquiri uma grande bagagem de conhecimentos do passado do Cajueirinho e da vida daquele povo com quem convivi toda esta minha vida de oitenta e dois anos até hoje. (Quero salientar aqui que sou descendente da família Marques de Freitas, o mais idoso, residente e domiciliado em Cajueirinho; nunca saí daqui e nem pretendo sair para nenhuma outra paragem).
Com o conhecimento adquirido pessoalmente com os nossos antepassados, sempre pensei em escrever algo sobre a origem da terra que me viu nascer, crescer e talvez verá morrer. Sempre vacilei por ser pouco o meu desenvolvimento intelectual, se tenho um pouco de discernimento, mas não sei coordenar idéias, pois nunca tive escola; por isso fui deixando o tempo passar: somente agora na terceira idade, já no último quartel da vida, observando que o Cajueirinho já com cento e trinta e três anos de existência, até agora não surgiu um outro descendente daqueles antepassados que guardasse os conhecimentos adquiridos nas gerações anteriores. Para que isso não seja sepultado comigo e venha a se perder no tempo, tomei a decisão de escrever num caderno as anotações desta história.
Foi bom ter deixado para escrever estas anotações somente agora porque anoto o passado e também o presente. Para o presente, tenho que fazer pesquisas, quanto, ao passado eu posso contar com o que tenho de mim mesmo; a faculdade que tenho de reter as idéias adquiridas anteriormente, a lembrança daqueles que conheci pessoalmente, que já se foram, que já morreram. Uma coisa que eu não vou admitir é a segunda morte deles, a morte do esquecimento.
No percurso desta história, em momento oportuno, escreverei cuidadosamente por extenso, o nome e a ordem da filiação de cada um, para que seus nomes fiquem vivos na história, que não fiquem sepultados juntamente com os seus ossos.
Com fé e confiança em Deus, hei de ter inspiração, a insuflação Divina de que necessito para realizar a tarefa que estou me submetendo - narrar os fatos históricos do Cajueirinho desde os seus primórdios até os dias atuais.
Depois de cento e trinta e oito anos da existência do Cajueirinho, já estando aqui a sexta geração daqueles pioneiros que fundaram e se estabeleceram, eu com muita honra, sendo também um dos seus descendentes, (da segunda geração), sou amarrado em história; tive a felicidade de conviver com minha avó Teodora Marques de Freitas, uma dos seis elementos que fundaram o Cajueirinho em 1870. Convivi com ela 19 anos, convivi também 50 anos com o seu filho Miguel, meu pai, ouvi dos dois muitas vezes falarem histórias do passado desta localidade, que além dos conhecimentos adquiridos através de suas histórias, tenho muitos itens adquiridos por mim mesmo nesta caminhada de oitenta e dois anos de vida. Portanto, com o desejo ardente que tenho desta história se perpetuar, para que não venha se perder no tempo, eu Messias Freitas, tomei a decisão de escrever um relatório sobre os meus ancestrais e da terra que compraram, e nela se desenvolveram; onde viveram até morrerem.
Portanto, como filho desta terra e descendente daqueles pioneiros, sinto-me na obrigação de cumprir esta tarefa; deixo aqui, registros simples e singelos, com conteúdo suficiente para se ter uma noção segura do que foi o Cajueirinho no passado.
3.1. CAJUEIRINHO
Inicio falando de minha infância no Cajueirinho, da sua origem e de seus primeiros habitantes.
A História do Cajueirinho que vivencio desde os meus tempos de criança, que aqui passo a relatar, é composta de fatos verdadeiros, pois além da minha convivência atenciosa, ainda adquiri conhecimentos de todos os fatos acontecidos desde os tempos iniciais através de pessoas idôneas. Como informante principal, eu tive a minha saudosa avó paterna Teodora Marques de Freitas, com quem convivi dezenove anos, e durante todo aquele tempo, ouvi-a falar dos fatos passados no Cajueirinho desde a sua fundação, centenas de vezes em todos os detalhes. Ela participou da fundação do Cajueirinho nos dois primeiros anos da década de 1870, juntamente com o seu esposo Francisco Lourenço de Freitas, seu irmão Manoel Marques de Freitas e a cunhada, Ana Marques de Freitas, o tio, o pai e sogro daqueles dois casais. Frutuoso José de Freitas era dono da terra e administrador das obras que ali estavam sendo executadas. (Frutuoso José de Freitas, que era também, um dos senhores de escravos daquela época, trouxera também naquele grupo um casal dos seus escravos de confiança, para ajudar nas construções das casas, onde também ficaria morando e trabalhando na agricultura e na pecuária ajudando aos outros dois casais, pois o plano principal ali, era instalar uma fazenda de gado e cultivar a agricultura, que segundo informação de Teodora, depois de construídas e prontas as três casas, uma para cada casal e furados dois cacimbões , em junho de 1872, Frutuoso instalou uma fazenda com duzentas cabeças de gado e outros animais. Entregou tudo ao seu filho e ao genro e foi morar em sua residência em Córrego Fechado. Pedro Marques da Cunha e Jacinta Maria da Conceição, eram assim chamados o casal de escravos acima citados).
De 1926 a 1945, época da minha infância, adolescência e juventude, tempo que passei junto da minha saudosa avó Teodora. Naquela época era a única sobrevivente daqueles três casais pioneiros, ”talvez foram os primeiros humanos que pisaram nesta terra”, apesar de ser uma distância de apenas quinze quilômetros daqui às Carrapateiras na praia onde havia gente, segundo consta, aqui era completamente desabitado pelo homem. Existia somente animais selvagens de diversas espécies, inclusive os ferozes, como seja: as onças, os caititus, (porco do mato) e outros. Havia também os répteis venenosos, como cobras cascavéis, jararacas e outras que metiam medo.
No dia 02 de novembro do ano de 1945, Teodora Marques de Freitas, nossa principal informante, saiu do nosso convívio deixando a gente com seus filhos e os filhos dos outros dois casais pioneiros que vieram com ela como ela e seu esposo. (Migrantes que emigraram da localidade de Córrego Fechado, na margem esquerda perto da foz do rio Acaraú–Ce, para se situarem aqui).
Aquele tempo que passei aqui no Cajueirinho junto da minha saudosa avó Teodora, eu convivi também com os filhos daqueles três casais pioneiros, os mesmos já eram cajueirinhenses nascidos aqui, componentes da primeira geração do Cajueirinho. Estive com eles até quando todos faleceram, inclusive, o meu pai, tios e tias que faziam parte daquele grupo, com o qual, eu muito aprendi. Era um grupo de trinta e três pessoas, quinze homens e dezoito mulheres; conheci todos muito bem, exceto cinco que já eram falecidos quando eu nasci em 1926. Pelos outros com quem convivi, eu tive grande admiração e sinto saudades daqueles elementos de saudosa memória. Todos faleceram com mais de oitenta e noventa anos de idade; somente Jovelina Maria da Conceição ultrapassou 100 anos, viveu 101 anos. Eram pessoas honestas, simples, humildes e respeitadoras que apesar de ser uma parte de pele morena e outra clara, não havia preconceito entre eles. Na convivência deles, não tinha distinção de cor e nem de raças. Todos viviam na mais perfeita harmonia, tanto era, que só trabalhavam em suas roças em regime de mutirão, em todo serviço que faziam sempre estavam juntos. Quando viajavam sempre era em grupo, especialmente para as festas religiosas em Acaraú, Cruz, Caiçara, Timbaúba, hoje Aranaú.
Naquelas viagens costumavam se dividir em dois grupos: uns a cavalo e outros a pés, principalmente os jovens; era importante para os namorados. Aqueles chefes de família eram todos casados religiosamente, quase todos duplamente compadres. Tinham também o hábito de rezarem o terço em família, à noite, antes de dormirem e muitos rezavam também o ofício de Nossa Senhora ao romper da aurora. Sabiam manter autoridade sobre os filhos e também sobre os afilhados em falta de seus pais. Nós filhos (componentes da segunda geração do Cajueirinho), tínhamos que respeitar uma lei de obediência que nos era imposta pelos nossos pais: toda pessoa idosa, pai de família ou não, era superior a nós, tínhamos que tratá-los com muito respeito e obediência, eles também nos tratavam muito bem, muitos deles até demonstravam amor e carinho por a gente, especialmente aqueles morenos, que a eles eu sempre tive uma amizade muito especial. Eles eram doze irmãos, cinco homens e sete mulheres, que eram uns amores de pessoas. A mais velha, Joana Maria da Conceição, conhecida por Joana Pedro, a mesma exercia a função de parteira, nós contemporâneos a chamávamos de mãe velha ou mãe Joana, ela nos chamava de filhos ou de meus meninos com muito carinho. Até mesmo depois que eu já era casado, pai de família, ela já velhinha, ainda me chamava de meu menino.Sinceramente na presença dela eu me sentia mesmo um menino mimado.
Nasci e cresci junto daqueles morenos que sentiam prazer em conversarem comigo; isto porque eu os ouvia com muita atenção quando me contavam aquelas histórias do passado do Cajueirinho; também do passado dos seus pais quando eram escravos e de outros que eram escravos também na mesma época. Falavam-me deles próprios, das infâncias e juventudes, dos seus amores que os levaram ao casamento. Falavam do fato de uma parte dos irmãos, os mais velhos terem nascidos escravos e outra parte já nasceram livres devido à lei do ventre livre.Somente os últimos da família de doze irmãos nasceram depois da liberdade total, em l3 de maio de l888 (lamento não saber a data de nascimento de cada um e poder destacar os três grupos). Infelizmente, na primeira geração do Cajueirinho, houve alguém que foi escravo, graças a Deus foi por pouco tempo, graças a um projeto de Lei da Princesa Isabel, regente do seu pai D. Pedro II, ocorrido em 13 de maio de l888, quando foi abolida definitivamente a escravatura no Brasil. Depois de decretada e aprovada pelo congresso aquela lei, publicada em todo o país, todos os senhores tinham que fazê-la cumprir.
O Senhor Frutuoso José de Freitas, que na época já era capitão da Guarda Nacional, titulo outorgado pelo Imperador D. Pedro II, no ano de 1886; reuniu todos seus escravos, homens e mulheres inclusive, os de menor idade, em sua residência no lugar Córrego Fechado; e no ato solene informou: “Meus amigos servidores, sinto alegria em dizer para todos vocês que estão aqui reunidos, que hoje chegou o dia de tirar um peso que eu sempre carreguei em minha consciência, que era ter vocês como escravos. Se eu os tive comigo assim, foi porque existia a Lei da escravatura neste país e os herdei dos meus pais; mas, sempre os tive mais como amigos do que como escravos; ninguém poderá negar isso, nunca vendi nenhum de vocês, porque vocês são gente e gente não se vende. Se comprei alguns de vocês, foi porque estavam expostos à venda pelos seus antigos senhores que os maltratavam no tronco; eu observando e simpatizando com a pessoa, aquele era o jeito que tinha para livrá-los do sofrimento.
“Comento aqui dando mais uma nova prova do amigo que fui de vocês: nunca tive uma senzala para vocês viverem dentro dela, misturados como animais irracionais, e nem tronco no terreiro da senzala para amarrá-los.Cada um de vocês, pai de família tem sua casa, seu ambiente reservado para viver com a sua família. Isto é um costume que já vem do meu pai, e sempre quando um casal de vocês se casa eu venho fazendo a mesma coisa: apronto a casa com tudo necessário dentro e entrego ao novo casal. Diante de tudo isso, vocês como escravos meus que eram, pela lei tinham que cumprir as minhas ordens. Entretanto diante desta Lei Áurea que suprimiu a velha Lei da escravatura que está definitivamente abolida em todo Brasil. Cumprindo o meu dever, e com consciência tranqüila e muita satisfação, declaro a todos vocês, que, a partir de hoje, deste momento que vos falo, todos vocês estão livres, desimpedidos das minhas ordens para fazerem o que quiserem, irem para onde quiserem, trabalharem para quem quiserem, ganharem o soldo de vocês e comprarem o que precisarem para a manutenção de vocês. Aqueles que quiserem trabalhar para mim eu tenho serviço, pago por diária e faço empreitada.De hoje por diante, sigam por conta de vocês e sejam felizes”.
Não somente Gabriel, como também suas irmãs e outros irmãos, me contaram que depois daquela reunião, todos ficaram surpresos, assustados e atônitos com aquela notícia brusca. Momento de tristeza ao mesmo tempo alegria porque estavam livres; tristeza porque não sabiam como lidar com a liberdade, pois eram acostumados a receberem em mãos todo o necessário para as suas sobrevivências que vinha da casa do senhor (a casa grande). A única responsabilidade que tinham, era a de prestarem serviço, obedecendo a ordens daquele senhor. No entanto, depois daquele dia, cada um tinha que se virar por conta própria para ganhar seu dinheiro e comprar o necessário para sobreviver; (aquilo foi uma crise muito difícil para aquele pobre povo começarem do zero sem ter iniciativa, especialmente para aqueles que viviam em senzala, que os cruéis senhores botaram pra fora e trancaram as senzalas onde viviam, embora enchiqueirados como bicho, mas não estavam ao relento). Aqueles escravos do capitão Frutuoso, pelo menos ficavam arranchados dentro das suas casas que o mesmo lhes havia doado. As casas ele deixou com eles e ainda os orientava sobre o que deviam fazer para sobreviverem. Assim muitos se adaptaram e cresceram, outros, foram viver da pescaria e outros ficaram trabalhando alugados onde encontravam serviço. Aos poucos foram saindo da terra de Frutuoso, ao sair, desmanchavam a casa e levavam o material para montarem a casa em outro lugar; e assim, com o correr do tempo. Atualmente, são poucas as pessoas que conhecem os originários daquele povo, que talvez logo se perderam no tempo como cedo se perdeu no tempo aqueles escravos que saíram das senzalas perambulando pelo mundo a fora. Somente o grupo do Cajueirinho, este não se perdeu e jamais se perderá. O casal Pedro Marques da Cunha e Jacinta Maria da Conceição, era para Frutuoso, um casal de escravos especial, talvez por ser um dos três casais primitivos, fundadores do Cajueirinho. Frutuoso num gesto de nobreza doou para aquele casal de ex-escravos, cem braças de frente com uma légua de fundo, da sua terra, e uma casa de morada para eles criarem a sua família em sua propriedade, que ainda hoje permanece naquele mesmo local o povo procedente daquele casal, que recebeu aquela terra como prêmio de gratidão pelos seus méritos, (trabalho prestado), distinção conferida pelo seu ex-senhor.
Estes fatos que estou relatando são frutos daquelas conversas que tive com aqueles meus velhos amigos que já se foram, a quem eu muito queria bem; como já falei acima, sentiam prazer em conversarem comigo, eu os ouvia com muita atenção, mas, também interessado naqueles conhecimentos que me transmitiam. Eu não tinha nada para dar a eles, a não ser o passatempo de que eles gostavam. Com todo o grupo eu tive grande contato, muitas vezes ouvi falarem das coisas do passado de Cajueirinho, especialmente do papai com quem convivi cinqüenta anos - de abril de 1926 a abril de 1976 - quando ele faleceu no dia 28. Muitas vezes ouvi-o falar dos bons e maus acontecimentos ocorridos nesta terra desde o início.
Falava da compra da terra feita no final da década de 1860, pelo seu avô Frutuoso José de Freitas, falava do primeiro roçado que fizeram naquela terra na mesma época; falava daquele Cajueirinho solitário que encontraram dentro do mato, onde o mesmo deu o nome ao lugar.
Falava dos três novos casais que vieram para ficarem aqui definitivamente, seus pais: Francisco e Teodora, seus tios Manoel e Ana, o casal de escravos: Pedro e Jacinta, isto já em janeiro de 1870; Falava da pressa que tiveram para fazerem três latadas ou casas cobertas de palhas de carnaubeiras para se abrigarem enquanto construíam as casas de moradas definitivas. Falava da Fundação daquela propriedade com cavação de poços profundos e da instalação da fazenda com duzentas cabeças de gado de criar, inclusive outros animais. Falava do progresso daquela fazenda e da fartura proveniente dela, nos seus primeiros anos de funcionamento até 1877, quando veio a grande seca que durou três anos; 1877, 1878 e 1879, que matou de fome e de sede quase todo aquele gado. Quando as coisas foram piorando, eles escolheram aquelas rezes mais novas e mais fortes e levaram para as várzeas, nas praias onde existiam refrigérios tanto em água como em comida; botaram gente vigiando, observando, suprindo faltas que por ventura acontecesse, o gado velho que ainda estava forte, que poderia cair depois, eles matavam, salgavam e secavam a carne no sol, empacotavam em surrão de couro e guardavam para irem comendo aos poucos; assim atravessaram os três anos de seca. Quando o inverno chegou em 1880, trouxeram o gado que escapou na praia, recomeçaram a fazenda, a agricultura também se refez, assim tudo se normalizou e a vida continuou.
Também naquela mesma época, diante daquela situação calamitosa, além da preocupação para salvar o gado, Frutuoso tinha que arranjar serviço para o povo que também passava fome, especialmente os seus escravos, a quem tinha por obrigação sustentá-los com todo o necessário para suas sobrevivências.
Para se prevenir contra uma outra possível seca, mandou cavar um bebedouro profundo dentro da sua propriedade, para que não viesse a faltar água outra vez. Salienta-se que é a única obra existente em toda região que se sabe, foi feita pela mão escrava.
3.2. ASPECTOS GERAIS
DESCRIÇÃO FÍSICA
O Cajueirinho anteriormente pertencia ao velho município de Acaraú, atualmente pertence ao novo município de Cruz, sendo a localidade de maior extensão territorial, demarcada em Março de 1869, com o nome de Cajueirinho.
Tendo esta localidade a maior área de terra demarcada no município de Cruz, a sua extensão territorial é de trinta e seis quilômetros quadrados, ou seja, três mil e seiscentos hectares, (uma légua quadrada).
O mesmo se compõe com 30% da sua área territorial das quatros localidades conjugadas : Lagoa do Mato e Bento Lobo no extremo Norte, que se separa do centro com a planície do Córrego Seco : uma área de cerca de oito a dez quilômetros, ainda desabitada . Canafístula e Pitombeiras extremo sul: que se separam do centro com o Serrote do Cajueirinho, também desabitado. O Cajueirinho está situado vinte quilômetros a Oeste da cidade de Cruz, no interior do município.
LIMITES
O Cajueirinho se limita ao Norte com a légua de terra medida da praia a começar depois da faixa marítima; as terras do Castelhano, no meio da Lagoa do Mato rumo ao Poço da Pedra no limite Leste onde deságuam o riacho da Prata no Lagamar, ao Nordeste do Bento Lobo. Limita-se ao Sul, com terras devolutas ou terras Nacionais, no Serrote da Pitombeira rumo a Canafístula, daí segue em direção ao riacho da prata, hoje, açude da Prata, ponto a Oeste da atual fazenda Bena Malaquias. Limite Leste: o mesmo açude até a parede, daí, segue pela sua vertente até o limite Norte no situado Poço da Pedra. Limita-se ao Oeste com as terras do Santo Estevão, Lagoa dos Monteiros e Juazeiro do Antônio Vidal, no travessão de Adonias Araújo com Serafim Marques de Freitas.
Observações – Primeiro quero salientar que a linha divisória do meio da Lagoa do Mato, que dividia a légua de terra da praia com a légua de “terra de data” onde está localizado o Cajueirinho, a mesma dividia também os distritos de Cruz e Aranaú, quando ambos pertenciam ao Município de Acaraú. Por ocasião da emancipação do Distrito de Cruz que passou a ser município no dia 14 de janeiro de 1985; um desmembramento do Acaraú foi feito à divisão territorial, especialmente do lado do Norte dividindo os distritos de Cruz com o de Aranaú que ainda ficou pertencendo ao Acaraú; que ficaram separados por uma linha divisória de Leste a Oeste, tendo início no rio Acaraú, passando pela localidade de Porteiras, em direção ao córrego do Tope, rumo ao córrego dos Medeiros, seguindo pelo mesmo até o Lagamar, atravessando o mesmo e entrando na foz do córrego das varas, seguindo no mesmo até onde faz o ângulo ou canto no travessão de José Júlio Louzada, rumo ao Norte até o mar: limite Leste do recém criado distrito de Caiçara no município de Cruz. Salienta-se que a referida linha divisória passou um quilômetro ao Norte do antigo limite do meio da Lagoa do Mato ao Poço da Pedra, que também não é mais o limite Nordeste do Cajueirinho. Com a divisão territorial entre Cruz e Acaraú, este limite ficou firmado na foz do Córrego das varas no Lagamar; com o citado aumento de um quilômetro, a área do Cajueirinho passou de trinta e seis para quarenta e dois quilômetros quadrados, ou seja, quatro mil e duzentos hectares – A segunda observação é sobre o antigo limite Oeste desta terra, não quero deixar escapar na velha escritura passada de Manoel Pinto Brandão para Frutuoso José de Freitas, em 1869, está escrito o seguinte: limite Oeste; onde der a medida de uma légua a partir do Riacho da Prata, onde ainda hoje permanece há menos de um quilômetro ao Leste da Lagoa dos Monteiros. Naquela época a cuja, ainda desconhecida, pelo contrário, tinha sido feita alguma referência sobre ela.
Outros esclarecimentos - Devo ainda antecipar aqui detalhes que considero necessários para melhor conhecimento do leitor, é o seguinte: esta área de terra que compreende o Cajueirinho, mede uma légua de Leste a Oeste e também uma légua de Norte a Sul: depois da medida também de uma légua a partir da praia até o extremo Norte desta primeira citada; é chamada de “terra de data” que significa terra cedida pelo governo Imperial à particulares; é também chamada de “Ilharga” porque fica lateral ou fundo da légua de terra medida da praia.Também pode ser Ilharga terra que fica nos fundos de terras que tem o seu início em rios. Esta área de uma légua quadrada, ou seja, três mil e seiscentos hectares que compreende o Cajueirinho, a mesma é ilharga do Castelhano porque fica nos fundos da légua de terra da praia do mesmo nome.
SUPERFÍCIE E POPULAÇÃO
O Cajueirinho, como está explícito no início da sua descrição é a maior área de terra demarcada no Município de Cruz; adicionada ao seis quilômetros quadrados acima citados, perfaz uma área de quarenta e dois quilômetros quadrados, ou seja, quatro mil e duzentos hectares. Sua população: segundo os dados de quatro agentes de saúde que trabalham na área, tem 384 (trezentas e oitenta e quatro) residências familiares, com 1703 (mil setecentos e três) habitantes em 2003. Com o tempo que tem e a extensão territorial, era para ter muitos habitantes, o fato é que durante o tempo passado, recebeu poucos imigrantes. A sua população atual, cerca de 90%, é oriunda dos seus primeiros habitantes, sem contar com os que emigraram, que há gente espalhada por quase todos os estados do Brasil, especialmente em São Paulo.
PRODUÇÃO
Produz principalmente castanha de caju, farinha e goma ou polvilho de mandioca, milho, feijão, arroz, batata doce, cana-de-açúcar, algodão, abóbora, melancia, melão, etc. Produz também bananas, mangas, graviolas, atas ou pinhas, laranjas, limões. Fabricam-se telhas, tijolos para construções; cera de carnaúba, mel, cera de abelhas. Cria-se gado e animais cavalar, porcos, ovelhas, cabras e aves.
3.3. RELEVO, PLANÍCIES, PLANALTOS E VERTENTES.
O Cajueirinho tem um relevo no centro sul, na margem direita do córrego do mesmo nome, uma saliência pedregosa que se inicia no açude da Prata no lado Leste, seguindo em direção ao Oeste em forma de cauda por onde passa a nova Estrada de Rodagem Cruz – Jijoca; vindo sobre a parede do açude, passa por cima da ponte, e segue por ali cerca de um quilômetro, onde desce para atravessar o córrego de Cajueirinho. Ali em direção ao Sul formando o monte ou serrote do Cajueirinho; numa extensão de cerca de três quilômetros de subida ou de ladeira até o cume do mesmo. Voltando a rota que vem do açude, ali segue pelo sopé do serrote em direção ao Sudoeste, depois em direção ao Sul rumo ao Planalto das Pitombeiras, onde ressalta o cume famoso, serrote do Cajueirinho, onde se olhando do horizonte se tem uma visão panorâmica maravilhosa. Olhando o Horizonte, se ver nitidamente o Serrote ou ponta da Jericoacoara, o oceano azul, as dunas, o velho morro do maxixeiro, os verdes coqueirais das praias do castelhano e Carrapateiras. Lá longe no Leste, se ver a Igreja matriz, do Acaraú e os verdes carnaubais, se ver também a Igreja matriz de Cruz.
Cerca de cinco quilômetros ao Sudeste do serrote, se vê a Igreja da Prata e o seu povoado e as águas do açude no lado Leste. O lado Norte avista-se o povoado do Cajueirinho e a sua Igreja recém construída. Mais afastadas estão as Igrejas de Caiçara no Noroeste, a de Jijoca e a de Lagoa dos Monteiros no Oeste. Olhando para o lado Sul, avista-se as serras do Mucuripe, da Meruoca, da Tucunduba, da Tiáia e muitas outras que não é possível denominar. O Serrote tem uma considerável altitude; pois em torno dele, em diversos pontos na terra, o mesmo é visto a olho nu à distância de oito a dez léguas; no mar, numa canoa à vela, só depois de duas horas de viagem com um bom vento terral, é quando o serrote desaparece nas ondas do mar. (Falo por experiência própria).
Em cima do Planalto, cerca de um quilômetro ao Sul, há o pequeno Serrote da Pitombeira, limite da légua quadrada da terra que no passado pertenceu a Frutuoso José de Freitas, (capitão da guarda Nacional).
Entre os dois serrotes, do Cajueirinho e da Pitombeira, há uma pequena lagoa temporária chamada de Lagoa do Manoel Jacinto, por onde passa também o velho Córrego do Cajueirinho, que nasce na localidade de São Gonçalo seguindo em direção ao Norte, passando pelas localidades de Cambota e Frei Jorge, as três no município de Bela Cruz; daí segue pelo planalto, já no Município de Cruz até a citada Lagoa do Manoel Jacinto que recebe as águas dos dois serrotes citados; daí desce farcejando o serrote do Cajueirinho recebendo as águas do mesmo nas épocas das chuvas, pelos lados Oeste, Noroeste e Norte até a sua foz no Riacho da Prata, ou melhor, dizendo: na revência do açude, quatrocentos metros abaixo da parede do mesmo, no lugar Poço Doce, depois de um percurso de cerca de vinte e quatro quilômetros de extensão.
É importante citar aqui um fato interessante e curioso; pois dá a impressão de uma coincidência. (Três substantivos comuns que ganharam nomes próprios oriundos da palavra cajueiro, também substantivo comum), que são elas: Cajueirinho, Serrote do Cajueirinho e Córrego do Cajueirinho.
Primeiro: O LUGAR ONDE HABITAMOS - CAJUEIRINHO: (o citado Senhor Frutuoso José de Freitas, tendo comprado aqui uma área de uma légua quadrada de “terra de data”, de um então Senhor Manoel Pinto Brandão, no final da década de 1860, a qual fazia parte de um corpo de terra com sete léguas de frente por uma légua de fundo; situada entre Poço da Pedra no riacho da Prata, aos canoés no Salgado do Guriú; “terra de data”, adquirida pelo mesmo Manoel Pinto Brandão com o governo imperial em data anterior). Segundo a minha saudosa avó Teodora Marques de Freitas, também a minha principal informante, ela nos contavam que no ano de 1869, somente havia cartório de imóvel em Sobral, para atender a esta região; foi quando e onde Frutuoso mandou registrar a sua área de terra. Como a mesma não tinha nome definido, ele a registrou com o nome de Fazenda Cajueirinho, devido a um cajueiro solitário que foi encontrado dentro do mato onde abriu o seu primeiro roçado aqui nesta terra no ano anterior, em 1868. Tendo conservado e zelado aquele cajueiro, com o zelo e o tempo, ele se transformou naquele cajueirão que conheci; que o mesmo ali postado à margem da estrada velha Cruz-Jijoca, na época que a gente viajava a cavalo e a pés, durante muitos anos ele deu abrigo aos transeuntes que passavam a força do sol naquela sua sombra fagueira. Como neste mundo nada é permanente tudo um dia tem o seu final. Devido à ação dos brejos proveniente da primeira cheia do Açude da Prata em 1964, também devido ao seu enorme peso e as suas raízes naquele brejo permanente, ele tombou; e depois de dois anos, sucumbiu definitivamente. Se não fora aquele malfadado incidente, ele ainda estaria bem vivo dentro do meu quintal, testemunhando a origem desta localidade.
Segundo: O SERROTE: o mesmo corresponde a uma área entre cinco a seis quilômetros quadrados , todo dentro da parte Sul da terra que pertenceu a Frutuoso José de Freitas, sem haver nem uma só pedra fora daquela área, que coincidência, com muita propriedade, este lhe deu o nome de Serrote do Cajueirinho.
Terceiro: O CÓRREGO: mesmo com a sua nascente fora da área do Cajueirinho, tem sua maior parte do percurso tortuoso percorrida dentro desta mesma área em alusão até chegar na revência do Açude da Prata no lugar Poço Doce; por isso lhe foi dado o nome de Córrego do Cajueirinho.
AÇUDE “ARANAÚ”
Há três outros pequenos serrotes fora da área, mas, muito perto do Serrote do Cajueirinho, um no extremo sul, o Serrote da Pitombeira, e os outros dois ao Nordeste, no Poço Doce. A Natureza os separou colocando entre eles o Riacho da Prata para no futuro o homem realizar a obra que foi construída ali entre os anos de 1950 a 1953. Um daqueles dois pequenos serrotes, o do lado Norte, “que faz esplanada para o Norte e Leste”, foi interligado com uma parede ou barragem ao serrote do Cajueirinho; fechando aquele espaço por onde passava o Riacho da Prata. Ali surgiu o Açude Aranaú, conhecido popularmente por Açude da Prata. Devo salientar aqui, que assisti de perto durante três anos a construção daquela parede feita a braços de homens cavando material com picaretos no chão de pedra, que, muitas vezes era bombardeado o serrote com bananas de dinamites para facilitar a cavação e apanhar o material. Em seus caixotes de madeira nas costas dos Jumentos ou Burricos (como chamavam), daí levar para o local da parede. Por outro lado, outra turma de homens, cavava barro ou argila no leito do riacho e da mesma forma, carregavam também num comboio de Jumento para o local da parede, onde era misturado com enxadas a outros materiais pedregosos, aguados com mangueiras e passado um rolo compressor sobre camadas de vinte centímetros de espessura, puxado por dois bois mansos e treinados.
Aquela parede foi feita assim desde a sua base dentro da fundação no leito do riacho, com cinco metros de profundidade e cinco de largura pelo lado interno; ao sair, no nível do chão ela se alargou para dez metros pelo lado externo, “no leito do riacho”, daí subiu dez metros até a superfície de quatro metros de largura com quatrocentos de comprimento até o sangradouro cavado no serrote do Cajueirinho com dinamite, por onde o açude sangra com uma lâmina d’água de até oitenta centímetros de fundura.
Esta é a história da velha barragem ou parede do Açude Aranaú, construída pelo homem com auxílio do jumento e do boi no espaço de tempo de três anos e um mês, iniciada em janeiro de 1950 e concluída em fevereiro de 1953.
Aquela barragem ou parede foi construída pelo Senhor Francisco de Melo, um senhor de Miraíma, que na época era empreitante e administrador daquela obra do D. N. O. C.S que a fez caprichosamente desde a base até a superfície, com material tirado do serrote, misturado com argila e passado o rolo compressor sobre camadas de vinte centímetros de espessura, puxado por aqueles dois bois mansos e treinados; que apesar de mais de cinqüenta anos que se passaram, lembro-me muito bem das características daqueles dois robustos animais, um de cor preta que atendia pelo nome de Moreno; o outro de cor amarela, que o chamavam de Dourado; os dois eram suficientemente obedientes às ordens que lhes davam no serviço.
Aquele rolo compressor que comprimiu o material daquela parede puxado por aqueles bois, foi fabricado ali, de concreto com pedra dali mesmo, numa forma de alvenaria foi feito um cilindro com um metro de comprimento, dois metros e setenta centímetros de circunferência e oitenta centímetros de diâmetro; o seu peso é calculado em mais de uma tonelada. Depois da conclusão da obra, aquele rolo compressor ficou de lado, encostado numa das paredes do sangradouro durante muitos anos, (um objeto do DNOCS. que poderá ou poderia ser peça do museu). Há cerca de dez anos passados o Senhor José Orion de Morais, o Dom, passou por ali com o trator, não sei se para alguma finalidade, ou se somente por curiosidade, ele rebocou aquela peça aqui para o Cajueirinho e atualmente, aquele objeto do DNOCS se encontra ao lado da oficina do Dom.
Ainda me referindo ao açude, falo sobre a sua capacidade em metros cúbicos e sua profundidade. Apesar de na época um engenheiro do Departamento Nacional de Obras Contra a Seca, (DNOCS) ter feito o estudo geral em quilômetros quadrados de toda área de onde desce água para dentro do riacho, desde a parede até o Mucuripe, nascente do mesmo, mesmo assim, eu só tenho os dados reais da parte das águas represadas; dados que recebi do Senhor Francisco de Melo, administrador daquela obra. Segundo ele: a represa daquele açude é de sete quilômetros; e a sua capacidade em volume de água é de quatorze milhões e seiscentos mil metros cúbicos. A sua bacia varia entre dez e doze metros de profundidade.
No início da história, falou-se dos dois pequenos serrotes à margem direita do Riacho da Prata, um ao Sul e o outro ao Norte, o que foi interligado ao serrote do Cajueirinho formando a parede do açude; quanto o lado Sul ficou dentro da bacia do açude transformado em uma ilha, onde há vinte anos funciona ali um centro de treinamento cognominado de Acampamento Jóia; o mesmo é de propriedade da Igreja Evangélica, administrado por pastores americanos.
Depois de cinqüenta e cinco anos de resistência daquela parede, que muita gente dizia que ser frágil, e que a qualquer momento em uma grande cheia do açude ela poderia quebrar-se e as águas desceriam derrubando as casas das margens do riacho até o Lagamar onde podiam se espalhar, ela se manteve firme e forte. Este fantasma permaneceu na mente de muitas pessoas até o dia em que o DERT mandou fazer o trecho Cruz – Jijoca da Estrada Litorânea Salvador – São Luiz; a qual passando por ali, desta vez a velha parede do nosso açude Aranaú foi beneficiada com um grande reparo em restaurações. A mesma foi alargada para dez metros pelo lado externo desde o sopé até a superfície, que foi planeada e calçada com pedras paralepipede, trazidas de Quixadá no interior do Ceará; inclusive foi construída uma super ponte de sessenta metros de comprimento sobre o sangradouro daquele açude público que é um Patrimônio Natural do Município de Cruz. Salienta-se que a ponte e a metade das águas do Açude ficam dentro da área do Cajueirinho. O Riacho da Prata é o limite de suas terras a partir do ponto onde é hoje a fazenda Bena Malaquias até o Poço da Pedra, desde o ano de 1868, quando Manoel Pinto Brandão passou uma escritura em Sobral para Frutuoso José de Freitas – trinta e seis quilômetros quadrados.
Abro um espaço para dar um toque sobre a criação do Distrito de Cruz.
Primeiro o porque do nome de Açude Aranaú? Devido o nome do Distrito. Naquela época o povoado de Cruz pertencia ao distrito de Aranaú, que se limitava com o distrito de Jericoacoara naquele mesmo riacho da Prata (berço daquele açude), em sua revência no lugar Poço da Pedra, onde o riacho despeja para o Lagamar, foi firmado o limite Norte do novo Distrito de Cruz (desmembrando-se de Aranaú) quando foi criado pela lei estadual de Nº 4.440, de 30 de dezembro de 1958; projeto do então vereador José Fabião Filho, aprovado pela Câmara Municipal de Acaraú, em 28 de maio de 1957. Assim foi criado o Distrito de Cruz, desmembrado do distrito de Aranaú e também do distrito de Jericoacoara até a Lagoa dos Monteiros pelo lado Oeste, limitando-se com Paraguai, pelo lado Norte com a fazenda Santo Estevão e pelo lado Sul com a Aroeira no município de Bela Cruz.
PLANICIE DO CORREGO SECO
Ao Norte do Córrego Cajueirinho, cerca de quinhentos metros, onde termina a faixa de matas e o subsolo pedregoso, começa a planície do Córrego Seco, até a Lagoa do Mato, cerca de quatro quilômetros. É uma área de aproximadamente quinze quilômetros quadrados, terreno de areia, subsolo de barro vermelho, totalmente ainda desabitada. Essa vegetação é variável rasteira e densa, às vezes, espaçosa. Há também mato fechado onde nasce a Macambira, como tem também campestre onde nasce o capim agreste. Esporadicamente ali existiu árvores de grande porte produtoras de madeira de lei, como a sucupira, a faveira, a umburana de espinho, o barbatimão, também mangabeira. Estas árvores que não eram muitas, foram cortadas para fazer tábuas. Uma das árvores que crescem naquela área, a que mais tinha e ainda existe, é a Janaguba, esta mesma está sendo extinta pelos doutores de garrafadas, descascando-as para tirarem o leite, que dizem ser medicinal.
AGRICULTURA NA PLANÍCIE - A terra daquela área é de primeira na cultura de mandioca, regular na cultura do feijão, milho se desenvolve muito bem apenas nos locais das moitas. O que está aprovado que também dar de primeira é a cultura do coco, pois no ano de 1983, o Doutor Wolmir Costenáro comprou quinhentos hectares de terra naquela área, cercou toda de arame, virou toda com tratores, plantou roça, milho, feijão, coqueiro, eucalipto, abacate, etc. Criou gado e ovelhas, enfim ele, que no começo, mesmo morando em Fortaleza, sempre estava por aqui, aos poucos foi se afastando e deixando entregue aos encarregados. Retirou o gado, mandou buscar o trator de arar a terra, acabaram-se as cercas. Assim, durante vinte anos que o Doutor Wolmir trabalhou aqui, só ficou como lembrança dele, os pés de eucaliptos que estão crescendo frondosos e os coqueiros que estão sem adubo e sem água morrendo de sede. Estes irão se salvar porque o Sr. Jonas Muniz no ano 2002 comprou aquela terra para restaurá-los e plantar além do coqueiro, cajueiros precoces.
Por que a denominação planície do Córrego Seco? Há no centro daquela área um Córrego que liga o Riacho da Prata ao Córrego do Santo Estévão e consecutivamente ao Córrego dos Anas, Lagoa da Caiçara e Lagoa da Jijoca.O mesmo permanece seco, somente cria água nos anos de invernos muito grandes, como foi o caso dos anos de 1964, 1974 e 1984; foi numa daquelas enchentes que os peixes tucunaré e a tilápia passavam do açude da Prata para a Lagoa da Jijoca, também pelo Córrego das Varas que se interliga com o Córrego do João Francisco e a Jijoca.
PLANÍCIE DA CANAFÍSTULA
A planície da Canafístula se inicia na estrada de rodagem Cruz – Jijoca no lado Norte, daí se estende em direção ao sul até o final da Canafístula e segue de Caldeirão a fora no município de Bela Cruz. O seu limite pelo lado Leste, é o Açude da Prata e pelo lado Oeste, o Serrote do Cajueirinho; a sua área total dentro das terras do Cajueirinho, é de apenas doze quilômetros quadrados.
Nesta região se produz principalmente castanha de cajú, farinha e goma ou polvilho de mandioca, milho, feijão, batata doce, etc. A grande maioria dos moradores fazem pescaria no Açude para subsistência; criam gado, ovelhas, porcos, etc.
PLANALTO DA PITOMBEIRA
Inicia-se ao lado norte do serrote do Cajueirinho, se estende em direção ao Sul até o Frei Jorge, continua no município de Bela Cruz. O seu limite do lado Leste, é a planície da Canafístula no córrego do mesmo nome; pelo lado Oeste, o Juazeiro do Antônio Vidal. A sua área total dentro das terras do Cajueirinho, é de apenas seis quilômetros quadrados.
Produção: Idêntica a da Canafístula, exceto as pescarias.
A Planície da Canafístula, o Planalto da Pitombeira e o Serrote do Cajueirinho foram famosas no passado e, sobretudo o Serrote, pela grandeza de sua fauna e pela abundância de madeira de lei; hoje tudo praticamente extinto, impiedosamente extraviado pelos depredadores inconscientes do mal que faziam ao meio ambiente, que cortaram as árvores e mataram animais silvestres. O homem com seu instinto animal não pára de destruir as coisas que a natureza criou. Os blocos de pedras que fazem o adorno do cume do Serrote do Cajueirinho e de onde se tem a visão panorâmica num horizonte de mil maravilhas; foram muito usados para fazer calçamentos nas cidades e na vila de Acaraú, Cruz e Jijoca incrementando o progresso que, também tem um preço, o sacrificado um patrimônio histórico que deveria ser preservado pelos órgãos públicos, criando ali um parque ecológico junto ao IBAMA).
VERTENTES
O Cajueirinho não tem vertentes permanentes, há somente as temporárias das épocas de chuvas que caem e penetram no solo pedregoso do Serrote e ficam vertendo durante algum tempo. Depois que termina o inverno, continua descendo água para dentro dos córregos, é por isso que registro como vertentes; as que descem pelos lados: Oeste, Noroeste e Norte, caem no Córrego da Canafístula. Este nasce também no município de Bela Cruz, entra no município de Cruz, farceja o Serrote pelo lado Leste e despeja as suas águas no Açude da Prata, ao Sul do terminal daquele serrote onde está encravada a parede do Açude.
3.4. ÁRVORES E ANIMAIS PRATICAMENTE EXTINTOS
Faz sessenta anos, desde a fundação do Cajueirinho em 1870, até 1930 quando comecei a entender e a compreender as coisas que guardo na memória. Lembro-me bem que no início da década de 30, tanto no cerrado do Serrote como na chapada do Cajueirinho, existia em grande quantidade, enormes árvores talvez seculares; não só vi como serrei vários troncos de umburana de espinhos, umburana de cheiro, sucupira, acende candeia, faveira ou favela, o pau-d’arco roxo, o pau d’arco amarelo, o gonçalo alves para fazer mourão de porteira, o amargoso e o barbatimão especializado em virgens de prensas , ainda aroeira, frei jó e outros para linhas de casas. A maçaranduba, cipaúba, copaíba; o pau pereira para fazer linhas, caibros e ripas, que durante muitos anos abasteceu todas as localidades circunvizinhas com madeira para usos em construções. Todos esses tipos de madeiras eu vi com abundância nas terras do Cajueirinho e especialmente no Serrote. Com a exploração contínua foi diminuindo ano a ano, até que nas décadas de 70 e 80 estavam praticamente extintas. Hoje apesar de faltar toda a madeira de lei, algumas pessoas fizeram pequenos roçados e plantaram cajueiros, mesmo sabendo que no sistema tradicional o mato não dá trégua, cresce mais rápido do que o cajueiro. No entanto, hoje o serrote em suas ladeiras, ainda há dezenas de hectares cobertos de mata virgem mais baixa e fina que só se presta para se fazer cerca, e de pouca duração. “O pretensioso progresso vai mudando a natureza e destruindo o meio ambiente”. Vale salientar os animais que ainda cheguei a ver antes que não habitassem mais nossa região. Vi porcos do mato (caititu), o tamanduá (mambira), as onças suçuaranas e vermelhas, o gato maracajá pintado, o quati (papa mel), o veado da capoeira, o tatu bola, o tatu verdadeiro, o macaco prego, cobras douradas e cascavel.
Animais que vi com grande abundância e hoje ainda existem, mas quase todos em fase de extermínio: o gato maracajá vermelho, o guaxinim, a raposa, o peba, a cutia, o preá, o gambá (cassaco), o macaco sagüi, o tejuaçú e o camaleão.
Cobras: a jararaca, a caninana, a cobra preta, a papa ovo, a goipeba, a verde, a de cipó e outras.
Aves: o jacu, o nambu, o perdiz, o nambu de capoeira, o corrupião, o papa arroz, a chamada de primavera, aves que gostam de cantar nas árvores dos quintais de casa no romper da aurora despertando a gente no prazer de viver no campo. “Tudo isso está por muito menos do que era no passado, mas no meu quintal ainda resta um pouco’’. Tem ainda o papagaio, a arara, a jandaia, a maracanã e o periquito “todos barulhentos”. O perverso carcará, o gavião - o ladrão de pintos”.Temporariamente, na época do inverno, nas cheias do córrego, ainda aparecem as aves aquáticas como o marreco, a ciricora, a jaçanã, a cauã, a galinha d’água, o socó e o massarico que cantam, gritam e fazem aquela festa alegrando o ambiente. O carão era um dos que gostava de estar neste período, mas há anos ele deixou de aparecer. Houve duas espécies de aves típicas do Cajueirinho que eu vi em abundância, que se há muito tempo não se vê mais, especialmente a seriema habitante nas esplanadas do serrote, e o zabelê que habitava no cerrado.
3.5. AS ABELHAS E SUAS ESPÉCIES: NATIVAS E MIGRANTES
As abelhas naturais do Brasil, especialmente do Cajueirinho, de que eu falo aqui, temos especialmente a Jandaíra, abelhas sem ferrão, que fabrica o melhor e mais saboroso mel, o mais procurado pelo seu teor medicinal. A jandaíra faz suas colméias em troncos de árvores ocadas; que está em extinção devido à perseguição da abelha africana. Ainda há, não muitas, arranchadas pelo homem em caixotes de tábuas (colméias artificiais), por isso o seu mel é caríssimo. Houve aqui uma outra abelha igual a Jandaíra no valor e propriedade do seu mel; que era uma abelha mirim, também sem ferrão, popularmente chamada de mosquito, sem existir há muito tempo. Há aqui ainda um tipo de abelha também que também tende a extinguir, mas do que a jandaira, pois ela não aceita morada feita pelo homem, seu habitat natural é no mato em casa de cupim. Dificilmente se encontra uma casa delas, trata-se da Cupira, uma abelha preta, também sem ferrão, mas agressiva com aqueles que mexerem em suas casas. Atacam em grupo mordendo sem dó e sem piedade. O seu mel é amargo e de alto teor medicinal na cura das inflamações garganta. Temos também uma outra abelha preta muito agressiva que é a Arapuá. Ela fabrica um mel grosso e consistente sem sabor agradável.
Agora passo a falar de uma espécie de abelha extinta aqui há muitos anos, vi muitas casas delas no tempo de minha juventude quando andava pelas matas caçando jacus, zabelês, cutias. Chamava-se de melimão, era uma abelha um pouco maior do que a jandaira, também amarela e sem ferrão, mansa que não fazia mal a ninguém. Sua casa era de uma forma interessante - construíam um tipo de cano ou túnel de cera na grossura de cinco a seis centímetros, seguia pelo chão debaixo das folhas secas que caiam das arvores numa extensão de oito a dez metros. Numa das extremidades faziam um bojo de vinte e trinta centímetros no chão, forrado e coberto de cera onde punham seus ovos e guardavam o mel que fabricavam. Seu mel é um pouco ácido, daí o seu nome de melimão. Quanto à outra extremidade do túnel, levantavam um tipo de chaminé na altura de vinte centímetros tendo a ponta dobrada, talvez para não entrar água, depois cobriam tudo de folhas secas, ficando invisível; somente quem tinha conhecimento deste “segredo” delas, vendo abelhas pousando naquelas folhas, sabia que ali existia uma casa delas.
Vejamos como é sábia a natureza! E também como era perverso e cruel o homem que destruía impiedosamente aquela obra em busca daquela cera e um pouco de mel; obra que com certeza custava tão caro para aquelas criaturas de Deus.
De uma vez que escrevo sobre as abelhas nativas das matas do Cajueirinho, falo também das abelhas, famílias dos maribondos, como seja, que inclui o cabatão, o dourado, o estrela, o boca torta e muitas outras que fabricam mel de primeira qualidade. As abelhas de ferrão quente o seu mel não é abundante, por isso ninguém vai buscá-lo.
ABELHAS MIGRANTES
Nas décadas de sessenta e setenta deste século passado, milhões e milhões de abelhas africanas emigraram para o Brasil, aliás, para todo o continente americano. Como aquelas abelhas chegaram até aqui havendo o empecilho do Oceano Atlântico? Vieram de navio? Não...Vieram voando com as suas próprias asas! Como uma abelha pode atravessar o Atlântico sem cair na água pelo cansaço e a fome? Uma só abelha seria mesmo impossível voar sozinha qualquer distância, mas para uma jornada como aquela ali entrou a mão da natureza. Jesus Cristo disse no sermão da montanha: nem uma folha se move sem ser pela vontade do pai que está nos céus. Pois bem! Aquele pai de quem falava Jesus Cristo no Evangelho, ele e a natureza são a mesma coisa, um conjunto de seres que formam o universo, o conjunto dos fenômenos físicos e suas causas. Tudo está relacionado aos mistérios de Deus Pai Onipotente Criador dos céus e da terra, o único autor da Natureza. Quando aquelas abelhas africanas se multiplicaram em excesso na África, a própria natureza se encarregou de transferi-las para as Américas, fazendo com que elas se reunissem em um enorme enxame, formando um só corpo e voassem juntas milhões e milhões de abelhas, cada uma fazendo sua parte; assim, de um só vôo caminhavam grandes distâncias. Quando lhes chegava o cansaço e a fome, todo o enxame caia na água fazendo uma grande pilha. Ali quando descansavam, para matar a fome, as mais fortes comiam as mais fracas (tinha que haver sacrifício) depois levantavam vôo e prosseguiam viagem, assim sucessivamente até chegarem a terra onde se estabeleceram.
Esta história eu li no “Almanaque o Pensamento” da época, não posso precisar o ano.

Um comentário:

siih disse...

Tio Messias minha admiração pelo Senhor sempre foi grande.Obrigado por repassar para nós a linda história da nossa comunidade