sexta-feira, 1 de junho de 2007

O que é do povo ninguém tira - Teatro - Cleo Andrade

A COMPANHIA DE DANÇA E TEATRO RENATO ARAGÃO APRESENTA: "O QUE É DO POVO NINGUÉM TIRA".
(Tocando pandeiro e flauta, como se fosse numa calcada. Lua é uma figura que persegue os artistas)
Lua – Chega de tanto barulho! (gritando e com ar de ordem)
Trovão – Mas não é barulho, é música.
Lua – Pois toquem baixinho... BAIXINHO. (tocam suavemente)
(Ao sair Lua da sala é como se o som invadisse a sua ociosidade).
Lua – Ah! (Saindo irritada)
(Os músicos conversam)
Trovão – Ah! Vamos parar de tocar.
Raio – Se pararmos de tocar as pessoas vão nos esquecer. Somos artistas. E o que há de errado em tocar?
Trovão – Não há nada de errado em tocar. O que a gente faz é por amor. E por amor vamos continuar fazendo. (Faz que vai tocar e um colega o para).
Estrela – Não. Lá vem Lua e a gente depende dela.
Raio – A rua é tão escaldante e quando o sol esquenta nossas cabeças... Ai.
Estrela – Por que diz essas coisas?
Raio – Porque Lua vai nos expulsar daqui se fizermos barulho!
Trovão – É, somos apenas quatro e quando libertamos esse som que estava em nós e ela veio e...
Cometa – A velha Lua veio e calou o som da nossa voz.
Estrela – Quer dizer que se eu falar mais alto alguém vem e cala a nossa voz?
Sol – Depende. Se eu falar mais alto... Se nós falarmos mais alto? Quem nos calará?
Estrela – É, quem?
Raio – E se a flauta ficar só? Como seu encanto vai produzir canto? Cantar soltar, o corpo... (suspirando) Cantar a imaginação.
Cometa – Canta que eu danço.
Estrela – É vamos dançar cantar e viver! (Lua interrompe o samba)
Lua – Como vocês perturbam! (gritando)
Sol – Calma, a música faz bem alma.
Lua – Eu não gosto do que me perturba.
Cometa – Sabe-se que o corpo precisa relaxar, então se sente, pois você precisa descansar.
Sol – Se a arte te incomoda, entrega-te a ela. E o som suave de nossa canção vai tocar seu interior, não resista. Aprecie o que é belo. O que é do povo.
Trovão – Lá vai. Lá está indo... A canção que chega ao outro lado da rua, da avenida,
nas colinas. Junto ao vento, vai atravessar as gerações!
Lua – Coitados mal sabem que a maioria das pessoas não pode viver da arte.
Raio – Isso porque pessoas como você nos mata o pouco de estímulo que fica. Parece que nos rouba o direto de gritar a arte! (Exalta-se inspiradamente).
Lua – Mentira! Não digam que mato a força que há dentro de vós. Mas digo que, quem poderá dizer que uma simples notinha besta sem parecer com nada pode fazer mexer as emoções de alguém?
Sol – Percebe que teu corpo anda estranho? Ah! Como anda.
Lua – No máximo incomoda os ouvidos, os olhos e a boca.
Sol – por que tanta amargura em tua vida?
Lua – Por nada.
Sol – Nem por ninguém?
Lua – Quer dizer já tive um amor... (triste) Tive não tenho mais! (irritada). E, chega dessa música que me faz, me faz... Faz-me lembrar... Lembrar... (pigarreia e para de voar no tempo).
Trovão – Vejam a música despertou no seu coração!
Lua – Por causa dessa coisa, dessa coisa que vocês chamam de arte, eu ando acreditando que podemos pintar o mundo e... Deixa pra lá!
Estrela – Mas claro, fazemos o mundo a nosso favor.
Lua – Favor de quem?
Todos – Nós (Apaixonado)
Lua – Jamais. Não existe vez para quem vive a brincar.
Trovão – Mas não é brincadeira!
Cometa – Veja o senhor Meteoro passou os dias a pintar o mundo... As casas, até as pessoas, ele pintava. Elas gostavam do trabalho dele. Sabiam?
Todos – E cadê ele?
Lua – Ele, ele... Não sei! Com certeza não teve mais oportunidade na vida. Coitado!
Estrela – Olha já to gostando do papo. E pelo visto a senhora sabe que falta apoio. Vem cá, a senhora gosta de arte?
Lua – Nã... Não. Jamais. (Meio sim).
Estrela – A senhora nunca gostou mesmo?
Lua – Chega de conversa e saiam dessa calçada. Vão trabalhar!
Sol – Aquele rosto me lembra alguém. (Pensando uns com os outros).
Todos – Quem? (Curiosos)
Raio – Ah, besteira.
Travão – Tive uma idéia! Vamos tocar...
Lua – (pensa) Como fui fraca, deixei a vida passar e por ela apenas estou passando.
Viver? Aproveitar?(Pausa) Velhos tempos aqueles, quando eu fui proibida de escrever meus poemas... (Os músicos voltam-se para aquela figura e tocam tristemente para ela).
Estrela – O quê está dizendo?
Lua – Eu não disse nada!
Sol – Disse, disse e eu ouvi.
Cometa – Continue falando... Isso é lindo.
Lua – Foi lindo. (Pausa) Houve um tempo em que era lindo fazer poesias, na minha
terra.
Trovão – Por que não é mais?
Lua – Por que não era fácil viver onde morava, rabiscando como se não tivesse outro ofício. Tinha que acordar com o galo e lata d’água na cabeça ia sertão afora. Hoje, confesso que vejo minha infância em vocês. Isso me faz sofrer. Os anos não voltam e eu estou velha demais.
Cometa – Não. Nunca ninguém ta velho pra viver. Velho ta aquele que por menor idade que tenha seu corpo não busca seus desejos realizar. O que está na alma de todos nós: É cultura de um povo que vive a verdadeira liberdade de fazer o que em seus pensamentos fluem.
Sol – Fale, fale mais dos poemas que fazia.
Lua – Um dia eu escrevi assim; “Grande é o meu sonhar, Infinito é meu pensar Minha vida aqui escrevo Nesses versos eu pelejo Por minha vida não quero Apenas passar”.
Raio – Quanta coisa você escondia. Será que aqueles versos que você fazia não emocionava?
Lua – Sim, muito. Fiz muitos garotos suspirarem por mim!
Todos – E aí?
Lua – Também fiz muitos outros serem desmascarados e por isso mesmo nunca tive vez entre eles.
Trovão – Deixa esse assunto pra lá, mas diga, onde estão todos os seus poemas?
Lua – Num baú.
Cometa – Pretende publicá-los? Quem sabe sua angústia de não ser escutado por anos pode chegar ao fim.
Lua – Será? Não é tarde?
Cometa – Claro que não! Anda é tempo.
Lua – Vocês me ajudam? Quem sabe dessa vez terei chance.
Cometa – É por isso que eu digo que a cultura está em todo lugar. Você é poeta e ninguém sabia.
Sol – Como diz o velho ditado: Quem vê cara não vê coração.
Raio – Eu sempre soube que por trás dessa cara sofrida havia um brilho especial nesses olhos que, mas pareciam estrelas quando o céu era escuridão.
Estrela – Olha eu sei que é difícil viver de arte, porém difícil ainda é esconder a luz que emana daqui. (pega no coração).
Cometa – E não adianta inventar moda o que é do povo ninguém tira.
Todos – É A CULTURA VIVA NO MEIO DE NÓS.
ELENCO - PERSONAGEM Iago Costa - Trovão Aline Muniz - Lua Leiliane Marta - Estrela Jussara Costa - Cometa Leanderson Sousa - Sol Marcelo Anderson – Raio
Texto: Maria C. Andrade em Maio de 2006

Um comentário:

Jussara Costa disse...

Quanta saudade!!!!! Bons tempos, maravilhoso tempo.