sexta-feira, 1 de junho de 2007

Trajetória de Vida - Messias de Freitas

RESGATANDO MEMÓRIAS
TRAJETÓRIA DE VIDA E AÇÕES DE MANOEL MESSIAS DE FREITAS 12/03/2008

De 1926 até os dias atuais em 2008, aos 82 anos de idade.
Manoel Messias de Freitas, conhecido como Messias Marques, nasceu no dia 12 de abril de 1926. Filho legítimo e primogênito do casal Miguel Marques de Freitas e Vitória Maria de Jesus. Avós paternos: Francisco Lourenço de Freitas e Teodora Marques de Freitas. Avós Maternos: Antônio Lula de Sousa e Silvina Maria de Jesus. Foi batizado em Caiçara pelo Pe. José Arteiro Soares, no dia 25 de abril de1926.
Cresceu saudável, segundo seus pais, andou com nove meses e com um ano já falava tudo. Começou a memorizar as coisas aos três anos de idade. Sempre foi ativo em direção à arte, brincava fazendo cavalos e bois de argila. Fazia pebas de argila com toda perfeição e também casinhas de tijolos. Mais tarde, começou a fabricar facas de serra velha de rodete. Botava cabo de chifre, embainhava e vendia. Assim foi indo e logo se aperfeiçoou na profissão de correeiro fabricando loros, ciras, rabichos, rabicholas e cabeçadas para animais, já que, naquela época, o único transporte existente era o cavalo e o burro que precisavam de arreios.
Em 1938, seu pai era vaqueiro de Manoel Lousada em Pitombeiras. Antônio e José Zifirino, também eram vaqueiros, que sempre lhe encomendavam peias de solas para pear gado e cavalos, de forma que aos treze anos de idade, já tinha sua oficina instalada num alpendre da casa de seus pais. Não dependia mais do mesmo para comprar suas roupas e calçados. No entanto, comia do pirão do velho, portanto, lhe pagava dois dias de serviço por semana. Como também pagava trabalhadores para os seus cinqüenta passos de roçados que fazia todos os anos. Pode-se dizer que aos dezessete anos já era independente. Porém nunca abandonou seus pais. Viveu com eles até suas mortes. Seu pai com 86 e sua mãe com 96 anos de idade.
Quando na infância, tinha também tendência para pedreiro e, no ano de 1944, trabalhou na construção da casa do Sr. Francisco Carlos por vinte dias, em companhia do Mestre de obras, Adolfo Pompilho. Ali ele se aperfeiçoou em mais uma profissão. Aliás, em duas, pois comprou as ferramentas de carpintaria do mestre Adolfo. E não foi difícil aprender a trabalhar de carpinteiro, fazendo portas para as casas que construiu, ali em diante.
A partir dali, ele não fazia mais arreios por encomenda, mas fazia estoque e punha no comércio para vender. Se dedicou em construir casas de tijolos e entregar de portas fechadas. A primeira foi de Luís Cunha no Solidão, a segunda do Martinho Malaquias, também em Solidão, inclusive o aviamento de fazer farinha. A terceira, a casa com aviamento para o Sr. José Júlio Lousada em Santo Estêvam e esta última junto com Sebastião Luís, também rapazola como ele, e mais algumas outras. Tudo isto sem descuidar da fabricação dos arreios, que estavam nas bodegas da região para vender.
Em novembro de 1945, chegou aqui de volta da Itália, o seu primo, José Romão de Medeiros, expedicionário da Guerra da Alemanha (2ª Guerra Mundial) que casou com a Sra. Isabel Setúbal, em 25 de dezembro, daquele mesmo ano e foram morar em Fortaleza. O Casal o convidou e ele aceitou a ir com eles conhecer a cidade grande. Vendeu tudo o que tinha em Cajueirinho e foi para a capital, onde ficou três meses sem trabalhar, hospedado na Pensão de Maria Romão, irmã de José, a quem acompanhou de viagem. A Pensão era na rua Demócrito Rocha, no Centro de Fortaleza “só gastando dinheiro”. Em abril veio para a cidade de Massapê, onde aprendeu a fabricar celas. Passou nesse município um mês e 20 dias e fez questão de frisar: “ali completei 20 anos de idade”. Dormia na oficina na qual trabalhava, fato que era do agrado do proprietário que por confiança achava sua oficina protegida de ladrões.
De volta a Cajueirinho, começou a produzir celas, já que trouxe os moldes em papel de embrulho. Trabalhava numa pequena oficina produzida por ele.
Agricultor por natureza, todos os anos chegava a fazer dois meses de farinhada (beneficiamento artesanal da mandioca com a produção de farinha e goma), porém, como costuma dizer, nunca dei uma enxadada em meus roçados. Sempre trabalhei com empréstimos bancários. Quando chegava o tempo de pagar, se não tinha o apurado, vendia algumas cabeças de porcos que também criava e quitava com o Banco.
No ano de 1949, aos vinte e três anos de idade, teve seu primeiro casamento. Casou-se com Rosa Marques de Freitas, conhecida por Rosita. Daí por diante, passou a morar na casa reformulada por ele próprio, na qual mora até hoje. Passou a trabalhar também com uma bodega.
Nove anos depois, em 1958, aconteceu uma das maiores secas da região. As vendas no comércio de celas ficaram escassas. Uma crise se instalou. No início de 1959, mais precisamente em fevereiro, entregou as plantações feitas e a família a seu pai, retornando a Fortaleza. Chegando lá, hospedou-se na casa de seu amigo Manoel Alves de Lima, esposo de sua prima Rosa. Lá, trabalhou como pedreiro. Disse ele: “reformulei sozinho o muro de um quarteirão do Colégio Cristo Rei na Aldeota. Passei três meses nessa obra”. Em maio, de volta para casa, reassumiu a família. Entrou novamente na selaria e construção civil. Levava uma vida tranqüila. Em 1960, sua esposa adoeceu. Apesar das idas ao Acaraú, foi só em Fortaleza, já em 1961, que foi detectado uma diabete em alto grau. Apesar dos esforços, em 02 de janeiro de 1962, ele, Messias Marques, aos 35 anos, ficava viúvo pela primeira vez, com cinco filhos (três homens e duas mulheres).
No ano de 1965, casou-se com a jovem Filomena de Sousa Freitas. Agora só trabalhava de pedreiro, porém, logo desenvolveu a profissão de fotógrafo e cobria festas de casamentos, batizados e aniversários de toda a região. Em 1972, de complicações no parto, perdeu sua segunda esposa, aquela que tanto lhe ajudou com trabalhos educacionais, inclusive era professora de alfabetização para crianças e adultos. Deixou-o com nove filhos, cinco da primeira mulher e quatro da segunda (três homens e uma mulher).
Sentindo dificuldades em cuidar daquelas crianças, sem muito pensar, casou-se novamente em junho do mesmo ano com sua cunhada, irmã de Filomena, a jovem Maria Vilani de Sousa. Acontece que a mesma tinha problemas psicológicos. No quarto dia após o casamento, sua doença se manifestou. Ela não assumiu a casa. Foram três meses de sofrimento, até que o mesmo a levou ao hospital psiquiátrico de Messejana, onde ficou internada. E voltou a internar-se dezessete vezes num espaço de quatro anos. Só então em 1976, o médico resolveu separá-los, para que os mesmos não tivessem filhos com a mesma doença. No entanto, eles já tinham um casal de filhos sem a doença.
Em 1977, separaram-se definitivamente através da declaração de nulidade do casamento católico. A partir de então passou a morar sozinho e a dividir o tempo entre o trabalho de fotógrafo e pedreiro. Até que em 26 de outubro de 1986, um acidente automobilístico lhe tirou parcialmente os movimentos do braço direito, ficando inválido para o trabalho e assim foi aposentado pelo INSS. Com o tempo livre, passou a dar mais ênfase ao mundo dos livros. Começou então a escrever fatos históricos sobre sua localidade, sua família (pioneira no povoamento do lugar) sobre filosofia entre outros.
Em 1990, voltou a casar-se, agora pela quarta vez. Sua esposa, Maria de Fátima Vasconcelos. Em 1991, nasceu uma filha do casal, chamada de Vitória. Contudo, este casamento também não deu certo e por divergências conjugais, vieram a separar-se dois anos após terem casado. Apesar de ter muito contribuído para a história de sua terra natal, o Sr. Messias sente-se uma pessoa solitária. Mora sozinho na mesma casa da época do primeiro casamento, ocupa seu tempo com a televisão, livros e sua máquina de escrever. Nos quatro casamentos, teve doze filhos, dos quais oito continuam vivos, casados e dando-lhe como alegria vinte e nove netos e seis bisnetos.
2.1. VIDA SOLIDÁRIA
Em 1934, no tempo que ele, Messias de Freitas, trabalhava na oficina, na casa de seu pai, sua irmã, Maria, adoeceu com feridas chamadas pereba roxa, que tomou todo o seu corpo. Eram feridas altamente doloridas. Seu pai a levou ao Acaraú. Fez uma consulta ao Doutor Benjamim Studart Gurgel. O mesmo receitou trinta injeções com aplicação intramuscular, sendo uma por dia. Naquela época, entre nós, só se usava como medicamento, comprimidos e remédios do mato, portanto, não tinha quem aplicasse as injeções. Seu pai, então, o levou para aprender a aplicar injeções com o Doutor Benjamim. Chegando lá, acompanhou o doutor na casa dos pacientes, pois não havia hospital, naquela época, onde presenciou a aplicação em cinco dos mesmos. Foi o suficiente. De volta à farmácia, Benjamim mandou-o aplicar uma injeção de cálcio em seu pai para testar se havia aprendido. Ele esterilizou a seringa, conforme tinha visto, cerrou a ampola do medicamento, sugou o mesmo, retirou o ar, molhou o algodão com o álcool, passou no braço do velho e aplicou a injeção.
Terminado o serviço, Benjamin, falou que o mesmo estava pronto e deu-lhe nota 10. Seu pai comprou as peças necessárias ao serviço e já em casa, aplicou as injeções da primeira até a última.
Nesse intervalo de tempo, a notícia correu e começaram a chegar pessoas para ele aplicar. O próprio Benjamim receitava e indicava vir tomar as injeções com ele. Assim, ele ficou aplicando as injeções em todas as pessoas da região. Logo, ele comprou um livro intitulado como “Técnicas de injeções e curativos” e passou também a fazer curativos.
Devido à demanda, resolveu passar a técnica a algumas pessoas, como Valdemar Ribeiro de Canafístula, e Chagas Daniel em Poço Doce. Mais tarde, ensinou a seus filhos Francisco e Neide. Assim prestavam serviços de saúde gratuitamente em Cajueirinho. Tal situação permaneceu acontecendo até quando foi fundado o Posto de Saúde em Cajueirinho em 2004. Foram sessenta anos de serviço prestado na saúde inteiramente gratuito.
2.2. AJUDANDO A EDUCAÇÃO
Em 1937, aos onze anos de idade, o Sr. Messias de Freitas aprendeu a assinar o nome e a escrever razoavelmente na Escola da Raimunda Fonteles Rios (conhecida como Raimunda Clara), turma multisseriada na casa da Professora como acontecia antigamente.
Saiu da escola, nunca mais voltou a estudar com uma professora. No entanto, desenvolveu a habilidade da leitura e da escrita sozinho. Com treze anos já lia com fluência livros de romance, de literatura de Cordel, inclusive a Bíblia que o mesmo pegava escondido de sua mãe para ler. Quando adulto, já aos trinta e sete anos, em janeiro de 1954, participou de um movimento, junto com mais onze pais, para a criação de uma escola em Cajueirinho, pois lá não havia até então. Dentro do combinado, a escola deveria ser particular e patrocinada por pessoas beneméritas, amigos do povo de Cajueirinho e movimentos sociais como leilões e outras promoções.
Assim combinado, ainda no mesmo mês, veio uma professora de Bela Cruz, senhorita Maria da Paz de Carvalho, pois aqui não tinha pessoas capacitadas para o cargo. Em reunião de pais com a então professora, batizaram a escola com o nome de Escola São José, em homenagem ao primeiro patrocinador que era de nome José. Ele era coletor estadual de Acaraú. Vale ressaltar que a escola, para evitar futuros comprometimentos, não aceitava ajuda de políticos. Sempre funcionando na casa de particulares, a escola progrediu, vencendo os anos. A mudança de professores e direção era uma constante, os mesmos tinham família em Bela Cruz, Cruz e Acaraú e, acabavam por voltar à sua terra para dar outro rumo às suas vidas. No final de 1964, a escola teve algumas filiais, se é que podemos chamar assim. Em Poço Doce, Carrapateiras e Castelhano. Foram orientadas pelo Sr. Messias e funcionavam no mesmo estilo. A diretora da época saiu para assumir a filial em Poço Doce, ocasionando a vinda da Senhorita Filomena Sousa, natural de Cruz, no início de 1965 para assumir a turma da quarta série e direção. Esta foi uma revolucionária. Logo que chegou, mandou compor o hino da escola pelo Sr. Nicodemos Araújo, sendo musicado por Joca Lopes. Estabeleceu reuniões de pais mensalmente e coordenou o MEB (Movimento de Educação de Base) juntamente com o seu esposo Messias de Freitas.
Foi co-criadora do movimento católico, Dia do Senhor, em Cajueirinho. Promovia reuniões de casais com intuito de instruí-los quanto ao planejamento familiar e convívio conjugal, além de realizar cursos de casamentos e batizados.
Com sua inesperada morte em 1972, por complicação no parto, assumiu a Direção da escola, a professora Maria Aparecida Lopes, que se aposentou na função.
A escola chegou a ganhar do prefeito de Acaraú, em 1970, o material de construção para que fosse construída sala de aulas. Porém, não houve tempo de construir no mandato do mesmo. Venceu as eleições seu adversário político que, a pedido de correligionários seus de Cajueirinho, transferiu a escola do Cajueirinho Leste I para o Cajueirinho Oeste II. Nesse tempo, já se cogitava a possibilidade de mudar o nome da escola para Escola Maria Filomena Sousa, a fim de homenageá-la, o que foi concretizado em reunião com aprovação unânime dos pais.
A escola funcionou ininterruptamente, sem nenhum registro por vinte anos, após que foi registrada em 1974, na prefeitura de Acaraú. A construção das salas, só aconteceu em 1986, já com o novo nome.
Curiosidade - No governo municipal do Pe. Aristides, o Sr. Messias foi indicado como Secretário de Educação do Município, terminando o cadastramento de todas as escolas do mesmo, inclusive aquelas particulares de sua responsabilidade. Exerceu o cargo por três meses e desistiu da função por gostar de liberdade, fazer as coisas do seu jeito.
Teve como primeira diretora, a Srta. Áurea Estela do Nascimento, vinda de Cruz. Contudo, devido as grandes extensões territoriais de Cajueirinho, o Sr. Messias e muitos outros pais, não se deram por satisfeito em ter que mandar seus filhos, por volta de 100 alunos para a nova escola, tendo que caminhar dois, alguns até três quilômetros para estudar. Cobraram das autoridades políticas, formaram uma corrente pedindo uma escola no Cajueirinho Leste, atualmente conhecido por Cajueirinho I.
Em 1997, foram finalmente atendidos, quando a Prefeitura Municipal de Cruz, emancipada já há 12 anos, construiu e fundou a Escola João Evangelista Vasconcelos, para onde desmembrou-se parte dos alunos da Escola Maria Filomena Sousa. O seu nome foi em homenagem ao filho do doador (Sr. Antônio Carlos) do terreno para a construção, qual faleceu subitamente.
Retrocedendo um pouco, gostaria de destacar o MEB (Movimento de Educação de Base) que Sr. Messias conheceu em Sobral, enquanto fazia um curso sobre linguagem e conhecimentos gerais. O MEB tinha uma duração de cinco anos e era ministrado à distância pela Rádio Educadora. Como a mesma não tinha freqüência na região, o Sr. Messias, conquistou o direito de capacitar uma professora daqui, para dar aulas presenciais para os adultos analfabetos de Cajueirinho. O projeto deu certo e se expandiu. Uma equipe do MEB veio de Sobral capacitar 52 pessoas da região.
O Sr. Messias sem apoio da Prefeitura de Acaraú, nem da paróquia, bancou com recursos próprios a alimentação de 57 pessoas na época, durante uma semana. A dormida acontecia na casa dos amigos. Desse curso foram formados 42 turmas em diversas localidades da paróquia. Sua esposa Filomena Sousa coordenava as mesmas junto ao MEB. No final de cinco anos em 1975, com o fim do projeto, foram alfabetizados 840 adultos, sabendo ler e escrever bem, fato bastante relevante para época.
2.3. NA LUTA PELO SOCIAL
P
Raimundo Ferreiraor muito tempo, foi ativista do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Ele e João Batista do Espírito Santo, sindicalista de Sobral, criaram várias delegacias sindicais nas localidades da região que hoje compreendem os municípios de Cruz e Jijoca, deixando a liderança dos trabalhos sempre com uma pessoa da própria comunidade. A sede das delegacias era em Acaraú. Dentre as delegacias sindicais criadas na época de 1971 que ele conseguiu lembrar completamente. Citou a de Mangue Seco com liderança de Francisco Justino, Córrego da Forquilha, liderada por Artur Jovino; Baixio, com Antônio Dutra, estas no município de Jijoca. Aroeira, com Nemésio Augustinho do Nascimento; Caiçara, com Antônio Martins dos Santos; e Aranaú, liderada pela conta do Miguel José, o Miguelzinho.
Enquanto isso, no Cajueirinho e Lagoa dos Caboclos, sua delegacia já era criada, por intermédio de Antônio Raimundo, ficando com a liderança de Jovino Pinto e Bendito Malaquias respectivamente. Segundo o próprio senhor Messias, uns dois anos depois foi criada a delegacia de Cruz, por volta de 1973. Hoje esta delegacia é a sede do sindicato deste município.
Registro da SEBEC em Cartório
Em 1970, criou em Cajueirinho a Sociedade de Educação e Bem-Estar Comunitário (SEBEC), nome este dado por sua esposa Filomena. Conseguiu trazer para o Cajueirinho e região, através da SEBEC, a Cáritas Diocesana que fornecia, de 15 em 15 dias, alimentos gratuitos para os associados e comunidade que tinham alunos do MEB. O Sr. Messias de Freitas, se encarregava de prestar contas da distribuição dos alimentos em Sobral. Também, através da Associação, conseguiu a instalação de energia elétrica pelos programas do governo para casas que só tinham luz de lampião. Hoje a SEBEC ainda existe, mas, anda um pouco esquecida, com poucos sócios. Porém, mantém-se viva e muito ainda poderá contribuir com o social da comunidade de Cajueirinho.
Publicação do SEBEC no Diário Oficial
Retrocedendo um pouco no tempo para falar de uma outra ação pelo bem da sociedade, o Sr. Messias conta que antes da existência do Açude da Prata, construído de 1950 a 1953, a rodagem de Cajueirinho para Cruz partia do Cajueirinho direto a Prata, seguia para o Jenipapeiro e finalmente Cruz. Com as primeiras águas vindas para o açude, a estrada foi interrompida e o governo abriu uma estrada pela margem direita do açude até o Poço Doce I, estrada esta, que permanece até hoje. A estrada de rodagem passou a ser pelo Poço Doce I via Prata.
Em 1964, na primeira cheia do açude, quando sangrou, os brejos subiram de tal forma que ficava em toda extensão do Cajueirinho, 64 casas no brejo e a estrada intransitável. Naquela agonia do povo, o Sr. Messias, em busca de uma solução, fez um abaixo-assinado ao Governador do Estado pedindo a abertura de uma nova estrada pela parte alta do terreno. Através do Dep. Danúsio Barroso foi entregue ao Governador Coronel Virgílio Távora. Aconteceu que o Sr. Manoel Pinto de Araújo, que morava na margem da estrada que brejou no trecho mais alto onde o brejo não atacou, teve a ousadia de fazer outro abaixo-assinado, colhendo as assinaturas que o Sr. Messias já havia colhido e em outra folha, as assinaturas daqueles que não eram prejudicados pedindo, a não abertura da estrada. O tal relatório foi cair também na mão do Governador e o mesmo que já tinha acertado até o dia de mandar o engenheiro (topógrafo) estudar a estrada, ao receber o 2º abaixo-assinado, com muita razão, vendo aquele mesmo povo que pedia a abertura, pedindo agora a não abertura, suspendeu a vinda do engenheiro. O Sr. Messias, recebeu uma carta do Doutor Danúsio Barroso pedindo sua presença lá em Fortaleza, para justificar aquela história; ele foi, mas não teve o crédito do Governador. Diante de tal situação, Sr. Messias juntou aquelas pessoas de boa vontade, especialmente os prejudicados com o brejo, e em mutirão, fizeram uma nova estrada pelo terreno alto a partir do extremo oeste do Cajueirinho, cruzando-o em direção a parede do açude, passando por cima da mesma, encurtando distâncias. Tirou uma reta para o Cedro, do Cedro, outra reta para a Lagoa velha, ligando a nova estrada a que vem de Cruz ao Aranaú. Para abrir a estrada, derrubando mata virgem a custa de foice e machado e destocando com enxadeco, foram necessários quatro anos, de 1964 a 1968. Encontraram muitas dificuldades em abrir cercados, foi quando tiveram a ajuda do prefeito Adenor Martins que doou através da Prefeitura, arames para abrir os becos por onde passa a estrada de rodagem. Hoje, no trajeto da referida estrada, existe uma rodovia estadual, a CE 085. No entanto, aqueles que construíram casas à sua margem continuam lá e nunca mais foram importunadas por brejos na estação invernosa.
2.4. VIVENCIANDO A FÉ
Foi dirigente comunitário da Igreja Católica por muito tempo. Dirigia novenas nas casas da região principalmente nos tempos da Quaresma, mês de Maio, Natal e em casos de falecimento. Por volta de 1965, o Sr. Messias, inspirado pelos amigos Edésio da Prata e Nicodemos do Aranaú, (hoje Pe. Nicodemos, vigário em Frecherinha), criou em Cajueirinho um movimento intitulado, O Dia do Senhor. Tratava-se de celebrações realizadas todos os domingos. Hoje é conhecido como celebração dominical da Palavra de Deus e é realizada na Igreja. Na época, ele reuniu uma equipe juntamente com sua esposa Filomena e aos domingos, à noite, celebravam para a comunidade. Os estudantes faziam a parte da liturgia. Posteriormente, difundiu a idéia por outras localidades como Poço Doce com Assis Silveira, Carrapateiras com Joaquim Marques, Castelhano, com Maria Tiago de Freitas e José Adriano, Caiçara, com João Paulo, Baixio, com Raimundo Jacinto, Juazeiro/Aroeira, com Odilon Paulo, Lagoa dos Caboclos, com Pedro Antônio. Foi idealizador e líder do movimento da criação da Igreja de Cajueirinho. Desde 1939, ouvia seu pai dizer que Cajueirinho precisava ter uma igreja, pois já tinha um cemitério e segundo um padre da época, no lugar que não tivesse igreja, não se deveria sepultar ninguém. Com a necessidade de uso do cemitério, era cada vez mais urgente a criação de uma igreja, porém, esta é uma construção que demanda muitos recursos e precisava-se de uma forte mobilização da sociedade, fato que acabou acontecendo na comunidade vizinha de Lagoa dos Monteiros. Como as ajudas passaram todas para lá, o ideal de seu pai ficou mais distante. Com o passar do tempo, seu pai caiu em doença e ainda sem demonstrar ser um moribundo, mandou chamá-lo.
O Sr. Messias de Freitas, na época com 50 anos veio ouvi-lo, quando o mesmo falou: “Sei que vou morrer e não vou ver construída a igreja. Peço-lhe que não deixe morrer esse meu ideal, lidere o trabalho da construção da igreja por mim”. O Sr. Messias disse que aceitou a proposta sem muito pensar nas dificuldades, saiu dali pensando na resposta que deu. Logo foi avisado que seu pai acabara de morrer. Aquilo lhe deu muito remorso, as últimas palavras de seu pai fora o pedido que lhe fez. Aquela aceitação, sem ser de coração, logo passou a ser seu principal ideal de vida.
No dia seguinte, pegou uma folha de papel e começou a rabiscar em busca de uma forma, um novo estilo, um modelo inédito para uma planta daquela igreja que prometeu ao seu pai de construí-la realizando o seu desejo. Como não era um arquiteto, nessa busca ele rabiscou vinte e três folhas para chegar à conclusão do seu objetivo.
Movimentou a sociedade, formou uma equipe, pediram esmolas, fizeram bingos, rifas, leilões e, no dia 09 de novembro de 1993, após 17 anos do planejamento (pois na época, não havia condições financeiras para tal fim) deu-se início o ambicioso projeto. Contou com uma ajuda financeira da Igreja Católica Alemã por intermédio do Pe. Valdery e de muitas comunidades católicas daquela região. Hoje se pode dizer que a igreja está quase concluída. O Sr. Messias de Freitas, continua na liderança dos trabalhos da parte arquitetônica da igreja. Na liturgia a liderança é da Sra. Gorete Pinto.
2.5. ARTICULADOR NA EMANCIPAÇÃO DO MUNICÍPIO DE CRUZ
No final de 1984, o Sr. Messias foi um dos cruzenses que abraçou a causa da emancipação de Cruz do município de Acaraú. Sua maior contribuição foi ter ido a Fortaleza convencer os migrantes cruzenses a virem votar aqui no plebiscito. Foram 13 dias na Capital, andando em todos os bairros e ruas onde moravam cruzenses com uma relação dos mesmos, fornecida pelo Pe. Valdery. Ao convencer o povo, formava os grupos de pessoas que vinham em transporte do Sr. Jonas Muniz. No total foram 49 pessoas, 49 votos a favor da emancipação política de nosso município.
“Percorri meu caminho, Preguei a minha fé,
Combati um bom combate”.
Segundo São Paulo

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